A Tribo que Chora


Imagem: Nicola Okin Frioli
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Nos anos 60, embalados pelas músicas Hare Krsna, os hippies surgiram com os ideais de paz e amor, cabelos por cortar e barba por fazer. Desde então todos procuraram sua turma. Os metaleiros acompanharam o nascimento do rock balançando seus longos cabelos, vestindo de preto e ouvindo o heavy metal. Os punks apareceram no final da década de 70, com seus penteados rebeldes e unhas pintadas ao som do hardcore, mandando todo o mundo “se foder”. Agora surgem os EMO, os sensíveis hardcore. Sem medo de mostrar seus sentimentos choram, brincam e amam, até demais.EMO é abreviação de Emocore, estilo de música romântica e agitada que tem mexido e mudado a cabeça dos adolescentes. No livro “O Tempo das Tribos”, o sociólogo Michel Maffesoli diz que estas “tribos” são formadas quando há uma identificação dos componentes com a causa, um sentimento de pertença. Que no caso dos emos é a sensibilidade. “Meu nome é Marco Antonio de Oliveira, e o que eu mais prezo é a amizade. Não tenho vergonha de demonstrar meus sentimentos em público, abraçar ou beijar, seja homem ou mulher, sou emo!” fala o estudante de Tecnologia em Moda. Maffesoli estabelece que quando alguém adere a um grupo, é porque está procurando um porto seguro, um abrigo.A Estudante de 15 anos, Caroline Demarco vive com o pai em Chapecó-SC. “Só um emo sabe o que é ser emo. O jeito de vestir é a única coisa que os outros vêem. Mas o que nos diferencia dos outros é o nosso sentimento, porra eu sou humana e amo!”. O Biólogo Ricardo Demarco, pai de Caroline, acha que a filha é muito depressiva, e se culpa em partes pelo comportamento da filha, “desde meu divórcio, ela se tornou triste desse jeito. E eu acho que se pintar assim e ouvir essas músicas só piora o humor dela” diz ele.


Imagem: Nicola Okin Frioli
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Keropi (nome fictício escolhido por ele mesmo) tem 18 anos e é emo há dois. Vive em Chapecó-SC e admite que é muito discriminado pelo seu estilo pessoal, “Sempre fui calado e depressivo. Não consigo entender porque as pessoas me rejeitam e porque elas pensam tão diferente de mim. Meus pais dizem que aquilo que faço é escolha minha, eles ainda acham que sou gay”. Emos não são, necessariamente homossexuais.

Não é possível generalizar, mas muitos emos adotaram a franja comprida e escondendo um dos olhos como marca pessoal, inclusive Keropi e Caroline. O jeito de vestir dos emos é muito “singular” como eles mesmos dizem. “Adoro saias xadrezes, meias listradas, camisetas de bandas ou com bichinhos estampados e tenho muitos acessórios como lacinhos, pulseiras de bolinhas, cintos com tachinhas e bótons” relata Jane (nome fictício), estudante de Tecnologia em Moda na Uno Chapecó.
“Eu acho que um emo não é composto de fora pra dento e sim de dentro pra fora, por isso não dá pra nos rotular dizendo que emo usa franjinha, que emo pinta o rosto. Eu gosto de usar roupas sobrepostas, munhequeiras, gosto de cintos diferentes e uso maquiagem quando não estou trabalhando” diz Keropi.

“Emo não é um jeito de vestir, é um jeito de sentir”, desabafa Caroline.

O emocore tem letras depressivas e tristes, mas com um som pesado influenciado pelo hardcore. “Dead Fish, Blink 182, Carbona, Forfun, Dance of Days e Good Charlotte são minhas bandas preferidas, as letras são totalmente a minha cara. Principalmente The World is Black do Good Charlotte, me identifico com a desilusão da música” fala Keropi. O exemplo de música citada diz “mas o mundo é negro, os corações gelados e não há esperança”.
Segundo a psicóloga Fernanda Tonello, a música influi diretamente no comportamento das pessoas, principalmente em adolescentes. A letra é assimilada como uma mensagem subliminar e pode até alterar o rumo da vida das pessoas.
Os emos também sofrem discriminação de outros grupos, são comuns os casos de agressão. “Cara, eu tenho nojo de emo! Emo é o contrário de ‘Ome’! Eles roubaram várias características dos outros grupos e tomaram pra si!” Fala Julio Cezar de 17 anos, metaleiro assumido. E na opinião do estudante de Sistemas de Informação, Patrick Pezzuol, que tem preferência pelo heavy metal clássico, “ser emo não passa de modismo, todos são adolescentes que simplesmente resolveram ser emo, sem nenhum conhecimento sobre música”.
Michel Maffesoli também discorre sobre o assunto, refere-se a estes como “grupos que não deixam de lembrar as estruturas das arcaicas das tribos e dos clãs das aldeias” (...) “se entrecruzam, se opõem, se entre ajudam, ao mesmo tempo que permanecem elas mesmas”. 



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Como fãs os emos alavancam o sucesso das bandas do mesmo estilo como Dead Fish, CPM 22, Blind Pigs, Rancid, NOFX, Aditive, Mukeka di Rato, Blink 182, Green Day, Avril Lavigne , The Used, Pennywise, Millencollin , MxPx, Goldfinger, Carbona, Good Charlotte, Sugar Kane, Street Bulldogs, Dance of Days, Nitrominds.

Maffesoli ainda diz que uma pessoa “se junta a tal ou qual grupo, se liga a tal ou qual atividade, e assim através de múltiplos vieses”, entre eles a internet, “se constituem ‘tribos’ esportivas, de amigos, sexuais, religiosas ou outras. Cada uma delas tem durações variáveis de vida, conforme o grau de investimento de seus protagonistas”. Por isso é difícil dizer quanto tempo durará um grupo, depende da dedicação dos integrantes. Mas se depender de Caroline, vai durar muito tempo, “eu nunca vou deixar de amar, vou ser emo pra sempre” completa abraçando Keropi.

Comentários

*Bane* Vanessa disse…
Meeuuu deuusss...muitoo massa essa reportageem, boa mesmoo :)
cipexbr disse…
Parabéns pela matéria.
Muito esclarecedora e pode contribuir para a diminuição do preconceito. Recomendo a leitura por pais e professores =]
Usar o Maffesoli foi uma sacada certeira.
Carlos A. Machado
Doutorando em Educação pela PUCRio
Mestre em Educação pela UFPR
Profe Vivi disse…
Meu querido! A matéria está boa mesmo...Não se surpreenda com os elogios! Parabéns!Beijos
Michyzinha_Star disse…
Glaucooo show d bola essa matériaa!!! Adoreiii!! Um grande beijooo

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